Na PAZ!

"A vida é breve e perder tempo é pecado"- Albert Camus

"Não é preciso consenso
nem arte,
nem beleza ou idade;
a vida é sempre dentro
e agora.
(A vida é minha
para ser ousada.)
A vida pode florescer
numa existência inteira.
Mas tem de ser buscada, tem de ser
conquistada".

Lya Luft

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Natal é um tempo de...


...saudade.

Saudade da infância, de quem partiu, do que fizemos ou do que deixamos de fazer.

Saudade de si mesmo.

Natal é, também, tempo de presentes e alegria.

Presentes...
Você é um presente para alguém?

(Adap. Háulia P. Souza)

sexta-feira, maio 13, 2011

Mosaicos

"Sonho de consumo de turistas do mundo inteiro, Copacabana viu desfilar por suas famosas calçadas de pedras portuguesas as figuras mais exóticas.



Nas areias em frente ao Copacabana Palace Hotel, ponto de referência da nata da sociedade carioca, hóspedes ilustres, ou não, apareciam para o banho de mar com bolsas enormes e roupas super coloridas, despertando a atenção da gente mais chegada a pouca roupa.Em Copacabana o verão durava o ano todo e, nesse clima de férias eternas, o negócio era aproveitar ao máximo.



_Copacabana só tem vagabundo!



Boates, "night clubs" e inferninhos com seus misteriosos letreiros de neon disputavam a preferência dos clientes e atiçavam nossa curiosidade.



O dia da semana podia ser qualquer um. Era sempre interessante observar homens e mulheres chegando, alguns em trajes de festa, em busca de diversão naquelas salinhas escuras que víamos, de relance, pela manhã, a caminho da escola ou da praia. Uma dessas casas noturnas situava-se em frente ao prédio onde morávamos e, particularmente, alimentava nosso imaginário por conta da presença de um famoso pianista. Tanta gente cabia lá dentro!



Brigas e xingamentos faziam parte das madrugadas do bairro. Homens e mulheres saíam no tapa ali, na rua mesmo.



_Copacabana só tem vagabundo!



Sendo o bairro residencial das elites, políticos e que tais, era natural que tivesse os melhores colégios particulares. Escolas religiosas tinham grande prestígio. Havia evidente preocupação em manter a distância entre quem tinha e quem não tinha dinheiro, tradição ou nome de família bem situada na escala social. Escolas públicas podiam ser mais democráticas, porém não eram para todos. Tivemos sorte e bons padrinhos.



_Copacabana só tem vagabundo!



A leitura nunca foi um hábito em casa. Faltavam paciência, tempo e dinheiro. Mas nunca faltaram incentivos, entenda-se. Revistas e jornais recolhidos entre os moradores do prédio, coleções de livros compradas a prestação. E puxões de orelha no caso de alguém duvidar de que era preciso estudar "pra virar gente".



Eram estratégias de sobrevivência naquela selva de pedra que nós detestávamos, claro. Compreendê-las, só mais tarde quando, tendo virado gente, cada um a seu modo esteve às voltas com a educação dos próprios filhos.



Queríamos mais era desvendar os segredos de Copacabana, mundo fechado com não sei quê de carnavalesco que aos nossos olhos juvenis parecia falta de compromisso com o restante do planeta. Deliciosa transgressão.



_Copacabana só tem vagabundo!Frase preferida do meu pai.


À sua maneira, tentava nos manter longe do perigo. Só não dizia qual. Quem sabe, pretendesse nos poupar dos tropeços por que passara desde sua chegada, nos anos vinte, ao bairro onde perambulou pelas areias até conseguir trabalho como ajudante de obra.
No seu entendimento, quem ia à praia em dia de semana era um "zinho" ou "zinha" qualquer, irresponsável, vagabundo. Linguagem cifrada, até quando mostrava, com seu modo de ser, que ajudar a quem precisa não depende de estado de humor, situação financeira ou religião. Aliás, ele era ateu. Foi assim que aprendemos a ser solidários e a entender as contradições da natureza humana.
_Copacabana...?
No final da década de sessenta teve a faixa de areia ampliada, ganhou coqueiros e quiosques, prédios e hotéis de luxo, linhas de metrô, variadas opções de lazer, grade em tudo que é canto. As calçadas em pedras portuguesas e os tradicionais mosaicos em forma de ondas do mar penam até hoje para não desaparecer de vez.
Os grandes cinemas-ai, ai, beijos no escurinho, drops de anis, onde o mocinho bonitão vencia sempre, Elvis lânguido atacava de "love me tender" e uns doidos cabeludos berravam "help!"- foram demolidos, ou desmembrados em salas menores. Ou se transformaram em casas de oração. Tudo bem, damas ou vagabundos, todos merecemos a remissão de eventuais pecadilhos, mas custava preservar a memória de um bairro que é cartão postal?
Posso imaginar o senhor meu pai, 95 anos, caminhando pela Avenida Atlântica, atônito com tantas novidades, mão no queixo, uma parada aqui, outra ali, ajeitando os óculos... Espanto aumentando ao ver o movimento das pessoas na praia madrugada adentro graças à magnífica iluminação. Vai contando fatos pitorescos...
Por fim, juntando as lembranças do que viu e viveu nas areias, ruas e becos de Copacabana, abre um sorrisinho maroto.
Copacabana só..."


Fotos: Suely em dois tempos-em 1954 e em 2011. Uau!

sexta-feira, abril 29, 2011

Aiuruoca não é Nova Iorque






"Aiuruoca.

Onde fica?

Não tinha ouvido falar, até então. Esse nome sugere que tenha origens indígenas. Imagino que seja um lugarzinho tranquilo. Terra batida. As pessoas todas se conhecem e dão "bons dias" bem cedinho, assim, com um sorriso meio tímido, mas desejoso de que o dia seja, realmente, bom. Não olham direto nos nossos olhos, não por que sejam falsos os seus pensamentos, ou por medo, mas por timidez e respeito à nossa condição de alienígenas. Os homens tiram o chapéu para fazer o cumprimento. As casas talvez sejam pintadas de branco, têm quintal e flores nas janelas.

As famílias, numerosas. E as crianças são criadas em liberdade, descalças e felizes na simplicidade de viver um dia de cada vez. Lá o tempo passa devagarinho e todo adulto sabe se vai chover, ou não.
Há trilhas no mato que levam a um riacho mansinho que se atravessa a pé. Ou, há caminhos que, segundo o folclore local, conduzem a cachoeiras mágicas onde se pode tomar banho em águas de tal poder energético que dão arrepios no corpo e na alma.

Quando chove, caminha-se a pé pela estradinha meio deserta, rindo e sentindo o cheiro do capim molhado, inconfundível referência de natureza em seu estado puro. Imagina-se o sabor do café quente bem doce, dos biscoitos e da broa feitos em fogão a lenha que serão servidos (por algum anjo?) na chegada.

Em Aiuruoca, as noites são suficientemente frias para aconchegos um tantinho inconfessáveis de corações e mentes. São noites que têm o gosto do que cada um seja capaz de sentir.

E deve ter, também, um lugarzinho onde se pode ouvir alguém ao violão. Serestas. Infinitas, como o espaço que ninguém se arrisca a calcular só olhando aqueles mundinhos brilhantes lá em cima, no escuro.

Se Aiuruoca não é desse jeitinho, então, "viajei".

Ah! Duendes e fadas são bem vindos nessa viagem..."