Lá vamos nós na maratona de final de ano, mais cansativa que a corrida de S. Silvestre. Escolha de presentes, confraternizações com pessoas amigas e outras nem tanto, lista de boas (e más) intenções, balanço geral do ano que sai apressado sem deixar saudade. Promessas renovadas pela milionésima vez. De fazer regime, de estudar mais, de ser mais tolerante. Promessas.
Sem tudo isso fica impossível sobreviver ao espírito das festas dessa época, é o que parece. Se não fosse desse jeito, como a gente enfrentaria as frustrações pelos sonhos não realizados e pelo não cumprimento daquelas intenções rabiscadas na última folha da agenda, à meia noite de trinta e um de dezembro, depois de dois ou três copos de vinho?
É um tempo em que sentimos vontade de perdoar " a quem nos tem ofendido". Não compensa guardar mágoas, diz nosso anjo bom, pois só o amor constroi, a justiça tarda, mas não falha e... castigo vem a cavalo. Bem feito, diz nosso anjo mau.
Esquecidos de que prometemos ser alguém melhor, nos atiramos às compras, com ou sem as crianças; furamos fila, encontrões e bolsadas no desavisado que vai à nossa frente na escada rolante. Tudo pela fraternidade universal e, principalmente, pelo melhor preço do aparelho de TV de plasma.
Temos pressa. Nem a proclamada crise econômica abala nosso ânimo consumista, ainda que continuemos sedentos de uma boa redução de IPI, talvez uma anistia fiscal. Ou, a queima de estoque da loja de grife. Ansiamos pela promoção relâmpago no supermercado, de preferência com direito a cafezinho, e pela degustação de pães e geléias na padaria do bairro classe A.
É o espírito de Natal!
Papai Noel, o próprio, num vistoso trenó vermelho e dourado puxado por três renas meigas e sorridentes está a postos na rua principal. Ao lado, a caixa para as cartinhas dos pequenos.
Tilin...tilin...tilin...
"Olha lá! É ele, é ele... Papai Noel"!
A criança arrasta pai, mãe, avó. Não quer saber se, como diz o anúncio na televisão, Papai Noel é um homem velho, barrigudo e de barba postiça que no Natal se veste de vermelho. Quer porque quer tirar foto com o tal da barba branca, ganhar presentes porque foi boazinha, porque passou de ano, porque não falou palavrão. Uma pequerrucha se aproxima desconfiada, mexe com as renas, oferece balas ao Papai Noel. Ho, ho, ho! A foto custa nove e noventa.
Os adultos mantêm distância, alguns estancam na correria das compras e se comovem, lembrando que um dia, também acreditaram que "seja rico ou seja pobre, o velhinho sempre vem". E há quem pergunte se já não era tempo do bom velhinho se modernizar e dispor de blog e e-mail para receber os pedidos das crianças e enviar fotos.
Tilin... tilin... tilin...
Pedintes de todas as idades não dão trégua aos corações embebidos de compaixão e bolsos recheados com o décimo terceiro salário. Alguém se irrita: "e você, vai pagar minhas contas?! Pede ao presidente!" Calma aí, senhora, que o presidente não tem tempo a perder com um ninguém, faminto e sujo que não rende voto. Suas preocupações são com o pré-sal, terceiro mandato, aquecimento global.
Cada um que trate de garantir o seu próprio panetone.
E numa tarde de muita correria atrás de presentes e de ingredientes para a ceia uma amiga recebe a visita de duas crianças moradoras de uma comunidade próxima. Os meninos trazem, cada um, um papel bem dobrado para ser entregue ao Papai Noel. Na cartinha do mais velho vem a explicação: o pai está doente, a mãe não tem emprego, pede uma cesta básica. O menorzinho espera que Papai Noel entenda que o dinheiro que a mãe consegue só dá para comprar remédio. Por isso, este ano não vai ter Natal. Quer um chocolate. E só.
Natal é para ser assim: simples, esperançoso e doce.
Mas... a gente consegue se livrar do sentido comercial que envolve as festas de final de ano?!
(2008)




