Na PAZ!

"A vida é breve e perder tempo é pecado"- Albert Camus

"Não é preciso consenso
nem arte,
nem beleza ou idade;
a vida é sempre dentro
e agora.
(A vida é minha
para ser ousada.)
A vida pode florescer
numa existência inteira.
Mas tem de ser buscada, tem de ser
conquistada".

Lya Luft

sábado, dezembro 01, 2012

"Natal é tempo de pensar com o coração, de deixar que ele fale mais alto". (Hália P. Souza)

NATAL DE CHOCOLATE

Lá vamos nós na maratona de final de ano, mais cansativa que a corrida de S. Silvestre. Escolha de presentes, confraternizações com pessoas amigas e outras nem tanto, lista de boas  (e más) intenções, balanço geral do ano que sai apressado sem deixar saudade. Promessas renovadas pela milionésima vez. De fazer regime, de estudar mais, de ser mais tolerante. Promessas.
Sem tudo isso fica impossível sobreviver ao espírito das festas dessa época, é o que parece. Se não fosse desse jeito, como a gente enfrentaria as frustrações pelos sonhos não realizados e pelo não cumprimento daquelas intenções rabiscadas na última folha da agenda, à meia noite de trinta e um de dezembro, depois de dois ou três copos de vinho?
É um tempo em que sentimos vontade de perdoar " a quem nos tem ofendido". Não compensa guardar mágoas, diz nosso anjo bom, pois só o amor constroi, a justiça tarda, mas não falha e... castigo vem a cavalo. Bem feito, diz nosso anjo mau.
Esquecidos de que prometemos ser alguém melhor, nos atiramos às compras, com ou sem as crianças; furamos fila, encontrões e bolsadas no desavisado que vai à nossa frente na escada rolante. Tudo pela fraternidade universal e, principalmente, pelo melhor preço do aparelho de TV de plasma.
Temos pressa. Nem a proclamada crise econômica abala nosso ânimo consumista, ainda que continuemos sedentos de uma boa redução de IPI, talvez uma anistia fiscal. Ou, a queima de estoque da loja de grife. Ansiamos pela promoção relâmpago no supermercado, de preferência com direito a cafezinho, e pela degustação de pães e geléias na padaria do bairro classe A.
É o espírito de Natal!
Papai Noel, o próprio, num vistoso trenó vermelho e dourado puxado por três renas meigas e sorridentes está a postos na rua principal. Ao lado, a caixa para as cartinhas dos pequenos.
Tilin...tilin...tilin...
"Olha lá! É ele, é ele... Papai Noel"!
A criança arrasta pai, mãe, avó. Não quer saber se, como diz o anúncio na televisão, Papai Noel é um homem velho, barrigudo e de barba postiça que no Natal se veste de vermelho. Quer porque quer tirar foto com o tal da barba branca, ganhar presentes porque foi boazinha, porque passou de ano, porque não falou palavrão. Uma pequerrucha se aproxima desconfiada, mexe com as renas, oferece balas ao Papai Noel. Ho, ho, ho! A foto custa nove e noventa.
Os adultos mantêm distância, alguns estancam na correria das compras e se comovem, lembrando que um dia, também acreditaram que "seja rico ou seja pobre, o velhinho sempre vem". E há quem pergunte se já não era tempo do bom velhinho se modernizar e dispor de blog e e-mail para receber os pedidos das crianças e enviar fotos.
Tilin... tilin... tilin...
Pedintes de todas as idades não dão trégua aos corações embebidos de compaixão e bolsos recheados com o décimo terceiro salário. Alguém se irrita: "e você, vai pagar minhas contas?! Pede ao presidente!" Calma aí, senhora, que o presidente não tem tempo a perder com um ninguém, faminto e sujo que não rende voto. Suas preocupações são com o pré-sal, terceiro mandato, aquecimento global.
Cada um que trate de garantir o seu próprio panetone.
E numa tarde de muita correria atrás de presentes e de ingredientes para a ceia uma amiga recebe a visita de duas crianças moradoras de uma comunidade próxima. Os meninos trazem, cada um, um papel bem dobrado para ser entregue ao Papai Noel. Na cartinha do mais velho vem a explicação: o pai está doente, a mãe não tem emprego, pede uma cesta básica. O menorzinho espera que Papai Noel entenda que o dinheiro que a mãe consegue só dá para comprar remédio. Por isso, este ano não vai ter Natal. Quer um chocolate. E só.
Natal é para ser assim: simples, esperançoso e doce.
Mas... a gente consegue se livrar do sentido comercial que envolve as festas de final de ano?! 
(2008)









domingo, janeiro 29, 2012

Assim você me mata

"Da música a melodia

diz, pela alma falando,

mais do que a boca diria

muitas horas conversando".

(Antonio Aleixo)




A moça da loja de cosméticos, a propósito de um seresteiro que percorre a galeria, vai me contando que aos sábados tinha serenata. Na cidade. Pequena, do interior. Miraí. Era um costume, ela diz. Ficava olhando pelas frestas da janela, não podia sair, o pai proibia. Não podia se mostrar. E o pai? Fingia que não se importava com a cantoria, dormia. Sabia que as filhas não iam sair, nem chegar à janela. Mas ouvir, podia... Podia, e ela e a irmã ficavam ouvindo e espiando pelas frestas. Quem cantava era de lá mesmo, rapazes seus conhecidos, então não tinha problema. Eram pelo menos três serenatas só para as duas. Todas as moças ganhavam? Algumas, sim; no dia seguinte era um ti ti ti, elas contando umas às outras das serenatas, como foi, quem fez. Quero saber o que a moça tinha que fazer para ganhar serenata. Ser bonita, simpática, ou o quê? Ela abre um sorriso: ah... nada. A gente conhecia os rapazes, eles gostavam de cantar, tinha a tradição da cidade, era o bastante. Podia bem ser um paquera, não podia era se declarar. Rindo, ela recorda: tinha um rapaz muito bonito, uma voz tão linda... sempre cantava na nossa janela. Sou curiosa: então, eles cantavam todo sábado, assim, do nada? Era costume na cidade pequena, ora. Mas as moças não chegavam à janela, não. É, a gente ficava deitada, ouvindo as serenatas, olhando pelas frestas. Sonhando. Pergunto em que época foi isso, ela responde com um grande sorriso que não deixa dúvida de que foram bons aqueles tempos: na década de setenta.

Enquanto a conversa estica, o homem, violão em punho, segue cantarolando um refrão sem nexo. De vez em quando, pára em frente a uma loja e informa que está solteiro e quer encontrar uma noiva. Mais alguns acordes, as moças com risinhos descrentes. Quase seis da tarde, a essa hora tudo o que elas queriam era estar em casa, descansando e ouvindo Michel Teló. E o seresteiro querendo se casar, mas com seus versos capengas não consegue nada. Alguém arrisca: deve ser maluco, o coitado!

Deixo a moça com as lembranças de rapazes bonitos e canções ouvidas por entre as frestas das janelas. Serenatas, não ganhei nenhuma, porém tive frestas nas janelas e, de lembrar, dou risadas.

Na rua, um casal de velhinhos de mãos dadas, amiudando os passos. Os dois param em frente à galeria, olham para cima conversando baixinho, sisudos. Penso que resgatam lembranças do prédio velho e mal cuidado, e talvez de antigas serenatas. Mais adiante, comentam as quatro estações do Portinari, o mosaico ali no parque. Preciso saber com urgência quando é que a gente deixa de sorrir ao lembrar das coisas boas que viveu. Anoto: pesquisar no google. Os velhinhos, lá, admirando o Portinari; a multidão atravessando a avenida e a previsão do tempo para hoje é de tempestade solar. Como a gente não sabe o que é isso, a pressa é a de todo dia. Geomagnética. Tempestade geo... o quê?! Só uma fagulha do sol. Aviões perderão o rumo, os sistemas sairão do ar, mas nada de pânico: as contas e o carnê do iptu chegarão a tempo. O único problema é que os seresteiros, ou perderão a voz, ou morrerão de amor.