Na PAZ!

"A vida é breve e perder tempo é pecado"- Albert Camus

"Não é preciso consenso
nem arte,
nem beleza ou idade;
a vida é sempre dentro
e agora.
(A vida é minha
para ser ousada.)
A vida pode florescer
numa existência inteira.
Mas tem de ser buscada, tem de ser
conquistada".

Lya Luft

quinta-feira, março 21, 2013

Seminário Internacional de Educação

"...A educação não acontece a partir do nada, no espaço vazio entre a boca do professor e os ouvidos do aluno; ela acontece no cérebro de cada um de nós". Um mundo, uma escola. Salman Khan


sábado, dezembro 01, 2012

"Natal é tempo de pensar com o coração, de deixar que ele fale mais alto". (Hália P. Souza)

NATAL DE CHOCOLATE

Lá vamos nós na maratona de final de ano, mais cansativa que a corrida de S. Silvestre. Escolha de presentes, confraternizações com pessoas amigas e outras nem tanto, lista de boas  (e más) intenções, balanço geral do ano que sai apressado sem deixar saudade. Promessas renovadas pela milionésima vez. De fazer regime, de estudar mais, de ser mais tolerante. Promessas.
Sem tudo isso fica impossível sobreviver ao espírito das festas dessa época, é o que parece. Se não fosse desse jeito, como a gente enfrentaria as frustrações pelos sonhos não realizados e pelo não cumprimento daquelas intenções rabiscadas na última folha da agenda, à meia noite de trinta e um de dezembro, depois de dois ou três copos de vinho?
É um tempo em que sentimos vontade de perdoar " a quem nos tem ofendido". Não compensa guardar mágoas, diz nosso anjo bom, pois só o amor constroi, a justiça tarda, mas não falha e... castigo vem a cavalo. Bem feito, diz nosso anjo mau.
Esquecidos de que prometemos ser alguém melhor, nos atiramos às compras, com ou sem as crianças; furamos fila, encontrões e bolsadas no desavisado que vai à nossa frente na escada rolante. Tudo pela fraternidade universal e, principalmente, pelo melhor preço do aparelho de TV de plasma.
Temos pressa. Nem a proclamada crise econômica abala nosso ânimo consumista, ainda que continuemos sedentos de uma boa redução de IPI, talvez uma anistia fiscal. Ou, a queima de estoque da loja de grife. Ansiamos pela promoção relâmpago no supermercado, de preferência com direito a cafezinho, e pela degustação de pães e geléias na padaria do bairro classe A.
É o espírito de Natal!
Papai Noel, o próprio, num vistoso trenó vermelho e dourado puxado por três renas meigas e sorridentes está a postos na rua principal. Ao lado, a caixa para as cartinhas dos pequenos.
Tilin...tilin...tilin...
"Olha lá! É ele, é ele... Papai Noel"!
A criança arrasta pai, mãe, avó. Não quer saber se, como diz o anúncio na televisão, Papai Noel é um homem velho, barrigudo e de barba postiça que no Natal se veste de vermelho. Quer porque quer tirar foto com o tal da barba branca, ganhar presentes porque foi boazinha, porque passou de ano, porque não falou palavrão. Uma pequerrucha se aproxima desconfiada, mexe com as renas, oferece balas ao Papai Noel. Ho, ho, ho! A foto custa nove e noventa.
Os adultos mantêm distância, alguns estancam na correria das compras e se comovem, lembrando que um dia, também acreditaram que "seja rico ou seja pobre, o velhinho sempre vem". E há quem pergunte se já não era tempo do bom velhinho se modernizar e dispor de blog e e-mail para receber os pedidos das crianças e enviar fotos.
Tilin... tilin... tilin...
Pedintes de todas as idades não dão trégua aos corações embebidos de compaixão e bolsos recheados com o décimo terceiro salário. Alguém se irrita: "e você, vai pagar minhas contas?! Pede ao presidente!" Calma aí, senhora, que o presidente não tem tempo a perder com um ninguém, faminto e sujo que não rende voto. Suas preocupações são com o pré-sal, terceiro mandato, aquecimento global.
Cada um que trate de garantir o seu próprio panetone.
E numa tarde de muita correria atrás de presentes e de ingredientes para a ceia uma amiga recebe a visita de duas crianças moradoras de uma comunidade próxima. Os meninos trazem, cada um, um papel bem dobrado para ser entregue ao Papai Noel. Na cartinha do mais velho vem a explicação: o pai está doente, a mãe não tem emprego, pede uma cesta básica. O menorzinho espera que Papai Noel entenda que o dinheiro que a mãe consegue só dá para comprar remédio. Por isso, este ano não vai ter Natal. Quer um chocolate. E só.
Natal é para ser assim: simples, esperançoso e doce.
Mas... a gente consegue se livrar do sentido comercial que envolve as festas de final de ano?! 
(2008)









domingo, janeiro 29, 2012

Assim você me mata

"Da música a melodia

diz, pela alma falando,

mais do que a boca diria

muitas horas conversando".

(Antonio Aleixo)




A moça da loja de cosméticos, a propósito de um seresteiro que percorre a galeria, vai me contando que aos sábados tinha serenata. Na cidade. Pequena, do interior. Miraí. Era um costume, ela diz. Ficava olhando pelas frestas da janela, não podia sair, o pai proibia. Não podia se mostrar. E o pai? Fingia que não se importava com a cantoria, dormia. Sabia que as filhas não iam sair, nem chegar à janela. Mas ouvir, podia... Podia, e ela e a irmã ficavam ouvindo e espiando pelas frestas. Quem cantava era de lá mesmo, rapazes seus conhecidos, então não tinha problema. Eram pelo menos três serenatas só para as duas. Todas as moças ganhavam? Algumas, sim; no dia seguinte era um ti ti ti, elas contando umas às outras das serenatas, como foi, quem fez. Quero saber o que a moça tinha que fazer para ganhar serenata. Ser bonita, simpática, ou o quê? Ela abre um sorriso: ah... nada. A gente conhecia os rapazes, eles gostavam de cantar, tinha a tradição da cidade, era o bastante. Podia bem ser um paquera, não podia era se declarar. Rindo, ela recorda: tinha um rapaz muito bonito, uma voz tão linda... sempre cantava na nossa janela. Sou curiosa: então, eles cantavam todo sábado, assim, do nada? Era costume na cidade pequena, ora. Mas as moças não chegavam à janela, não. É, a gente ficava deitada, ouvindo as serenatas, olhando pelas frestas. Sonhando. Pergunto em que época foi isso, ela responde com um grande sorriso que não deixa dúvida de que foram bons aqueles tempos: na década de setenta.

Enquanto a conversa estica, o homem, violão em punho, segue cantarolando um refrão sem nexo. De vez em quando, pára em frente a uma loja e informa que está solteiro e quer encontrar uma noiva. Mais alguns acordes, as moças com risinhos descrentes. Quase seis da tarde, a essa hora tudo o que elas queriam era estar em casa, descansando e ouvindo Michel Teló. E o seresteiro querendo se casar, mas com seus versos capengas não consegue nada. Alguém arrisca: deve ser maluco, o coitado!

Deixo a moça com as lembranças de rapazes bonitos e canções ouvidas por entre as frestas das janelas. Serenatas, não ganhei nenhuma, porém tive frestas nas janelas e, de lembrar, dou risadas.

Na rua, um casal de velhinhos de mãos dadas, amiudando os passos. Os dois param em frente à galeria, olham para cima conversando baixinho, sisudos. Penso que resgatam lembranças do prédio velho e mal cuidado, e talvez de antigas serenatas. Mais adiante, comentam as quatro estações do Portinari, o mosaico ali no parque. Preciso saber com urgência quando é que a gente deixa de sorrir ao lembrar das coisas boas que viveu. Anoto: pesquisar no google. Os velhinhos, lá, admirando o Portinari; a multidão atravessando a avenida e a previsão do tempo para hoje é de tempestade solar. Como a gente não sabe o que é isso, a pressa é a de todo dia. Geomagnética. Tempestade geo... o quê?! Só uma fagulha do sol. Aviões perderão o rumo, os sistemas sairão do ar, mas nada de pânico: as contas e o carnê do iptu chegarão a tempo. O único problema é que os seresteiros, ou perderão a voz, ou morrerão de amor.

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Natal é um tempo de...


...saudade.

Saudade da infância, de quem partiu, do que fizemos ou do que deixamos de fazer.

Saudade de si mesmo.

Natal é, também, tempo de presentes e alegria.

Presentes...
Você é um presente para alguém?

(Adap. Háulia P. Souza)

sexta-feira, maio 13, 2011

Mosaicos

"Sonho de consumo de turistas do mundo inteiro, Copacabana viu desfilar por suas famosas calçadas de pedras portuguesas as figuras mais exóticas.



Nas areias em frente ao Copacabana Palace Hotel, ponto de referência da nata da sociedade carioca, hóspedes ilustres, ou não, apareciam para o banho de mar com bolsas enormes e roupas super coloridas, despertando a atenção da gente mais chegada a pouca roupa.Em Copacabana o verão durava o ano todo e, nesse clima de férias eternas, o negócio era aproveitar ao máximo.



_Copacabana só tem vagabundo!



Boates, "night clubs" e inferninhos com seus misteriosos letreiros de neon disputavam a preferência dos clientes e atiçavam nossa curiosidade.



O dia da semana podia ser qualquer um. Era sempre interessante observar homens e mulheres chegando, alguns em trajes de festa, em busca de diversão naquelas salinhas escuras que víamos, de relance, pela manhã, a caminho da escola ou da praia. Uma dessas casas noturnas situava-se em frente ao prédio onde morávamos e, particularmente, alimentava nosso imaginário por conta da presença de um famoso pianista. Tanta gente cabia lá dentro!



Brigas e xingamentos faziam parte das madrugadas do bairro. Homens e mulheres saíam no tapa ali, na rua mesmo.



_Copacabana só tem vagabundo!



Sendo o bairro residencial das elites, políticos e que tais, era natural que tivesse os melhores colégios particulares. Escolas religiosas tinham grande prestígio. Havia evidente preocupação em manter a distância entre quem tinha e quem não tinha dinheiro, tradição ou nome de família bem situada na escala social. Escolas públicas podiam ser mais democráticas, porém não eram para todos. Tivemos sorte e bons padrinhos.



_Copacabana só tem vagabundo!



A leitura nunca foi um hábito em casa. Faltavam paciência, tempo e dinheiro. Mas nunca faltaram incentivos, entenda-se. Revistas e jornais recolhidos entre os moradores do prédio, coleções de livros compradas a prestação. E puxões de orelha no caso de alguém duvidar de que era preciso estudar "pra virar gente".



Eram estratégias de sobrevivência naquela selva de pedra que nós detestávamos, claro. Compreendê-las, só mais tarde quando, tendo virado gente, cada um a seu modo esteve às voltas com a educação dos próprios filhos.



Queríamos mais era desvendar os segredos de Copacabana, mundo fechado com não sei quê de carnavalesco que aos nossos olhos juvenis parecia falta de compromisso com o restante do planeta. Deliciosa transgressão.



_Copacabana só tem vagabundo!Frase preferida do meu pai.


À sua maneira, tentava nos manter longe do perigo. Só não dizia qual. Quem sabe, pretendesse nos poupar dos tropeços por que passara desde sua chegada, nos anos vinte, ao bairro onde perambulou pelas areias até conseguir trabalho como ajudante de obra.
No seu entendimento, quem ia à praia em dia de semana era um "zinho" ou "zinha" qualquer, irresponsável, vagabundo. Linguagem cifrada, até quando mostrava, com seu modo de ser, que ajudar a quem precisa não depende de estado de humor, situação financeira ou religião. Aliás, ele era ateu. Foi assim que aprendemos a ser solidários e a entender as contradições da natureza humana.
_Copacabana...?
No final da década de sessenta teve a faixa de areia ampliada, ganhou coqueiros e quiosques, prédios e hotéis de luxo, linhas de metrô, variadas opções de lazer, grade em tudo que é canto. As calçadas em pedras portuguesas e os tradicionais mosaicos em forma de ondas do mar penam até hoje para não desaparecer de vez.
Os grandes cinemas-ai, ai, beijos no escurinho, drops de anis, onde o mocinho bonitão vencia sempre, Elvis lânguido atacava de "love me tender" e uns doidos cabeludos berravam "help!"- foram demolidos, ou desmembrados em salas menores. Ou se transformaram em casas de oração. Tudo bem, damas ou vagabundos, todos merecemos a remissão de eventuais pecadilhos, mas custava preservar a memória de um bairro que é cartão postal?
Posso imaginar o senhor meu pai, 95 anos, caminhando pela Avenida Atlântica, atônito com tantas novidades, mão no queixo, uma parada aqui, outra ali, ajeitando os óculos... Espanto aumentando ao ver o movimento das pessoas na praia madrugada adentro graças à magnífica iluminação. Vai contando fatos pitorescos...
Por fim, juntando as lembranças do que viu e viveu nas areias, ruas e becos de Copacabana, abre um sorrisinho maroto.
Copacabana só..."


Fotos: Suely em dois tempos-em 1954 e em 2011. Uau!

sexta-feira, abril 29, 2011

Aiuruoca não é Nova Iorque






"Aiuruoca.

Onde fica?

Não tinha ouvido falar, até então. Esse nome sugere que tenha origens indígenas. Imagino que seja um lugarzinho tranquilo. Terra batida. As pessoas todas se conhecem e dão "bons dias" bem cedinho, assim, com um sorriso meio tímido, mas desejoso de que o dia seja, realmente, bom. Não olham direto nos nossos olhos, não por que sejam falsos os seus pensamentos, ou por medo, mas por timidez e respeito à nossa condição de alienígenas. Os homens tiram o chapéu para fazer o cumprimento. As casas talvez sejam pintadas de branco, têm quintal e flores nas janelas.

As famílias, numerosas. E as crianças são criadas em liberdade, descalças e felizes na simplicidade de viver um dia de cada vez. Lá o tempo passa devagarinho e todo adulto sabe se vai chover, ou não.
Há trilhas no mato que levam a um riacho mansinho que se atravessa a pé. Ou, há caminhos que, segundo o folclore local, conduzem a cachoeiras mágicas onde se pode tomar banho em águas de tal poder energético que dão arrepios no corpo e na alma.

Quando chove, caminha-se a pé pela estradinha meio deserta, rindo e sentindo o cheiro do capim molhado, inconfundível referência de natureza em seu estado puro. Imagina-se o sabor do café quente bem doce, dos biscoitos e da broa feitos em fogão a lenha que serão servidos (por algum anjo?) na chegada.

Em Aiuruoca, as noites são suficientemente frias para aconchegos um tantinho inconfessáveis de corações e mentes. São noites que têm o gosto do que cada um seja capaz de sentir.

E deve ter, também, um lugarzinho onde se pode ouvir alguém ao violão. Serestas. Infinitas, como o espaço que ninguém se arrisca a calcular só olhando aqueles mundinhos brilhantes lá em cima, no escuro.

Se Aiuruoca não é desse jeitinho, então, "viajei".

Ah! Duendes e fadas são bem vindos nessa viagem..."

sexta-feira, julho 09, 2010

São dois pra lá, dois pra cá

O arraiá da prof. Olga estava animado. Teve doce, salgados, quentão, quadrilha improvisada e... muito forró! E óia só o grupão forrozeiro, alunos das aulas de dança, professores e convidados!

"(...) A dança de salão tem o poder mágico de nos transportar aos cantinhos mais escondidos da alma... Ali onde segredos e lembranças se guardam quietos. Tangos e boleros falam de amor... e quem não desejou viver um grande amor?
El dia que me quieras...
Dançar é para quem está apaixonado. Por alguém. Pela vida. Pela certeza de que o fututo é hoje, em qualquer idade. Aliás, o que menos importa é a idade ou a razão que leva alguém às aulas de dança de salão. O resultado, no final das contas, é sempre positivo. Amizades. Casais se formam, ou se unem ainda mais, envolvidos pela poesia das canções e a sensualidade dos movimentos.
Pasaran mas de mil años, muchos mas/yo no se si tenga amor la eternidad/pera alla, tal como aqui, en la boca llevaras sabor a mi...
Na verdade, há sentimentos que o tempo não consegue destruir. Sentir-se parte de um grupo é um deles. Ser livre para fazer escolhas. O convívio prazeroso nas aulas de dança permite que tais sentimentos se fortaleçam, dando àqueles já não tão jovens a percepção de estar vivo e de ser aceito como parte integrante de um mundo que, como sabemos, é puro movimento.
Afinal, senhoras e senhores, dançar é liberdade de corpo e alma.
Gracias a la vida, que me ha dado tanto"...(Suely Nunes)