"Da música a melodia
diz, pela alma falando,
mais do que a boca diria
muitas horas conversando".
(Antonio Aleixo)
A moça da loja de cosméticos, a propósito de um seresteiro que percorre a galeria, vai me contando que aos sábados tinha serenata. Na cidade. Pequena, do interior. Miraí. Era um costume, ela diz. Ficava olhando pelas frestas da janela, não podia sair, o pai proibia. Não podia se mostrar. E o pai? Fingia que não se importava com a cantoria, dormia. Sabia que as filhas não iam sair, nem chegar à janela. Mas ouvir, podia... Podia, e ela e a irmã ficavam ouvindo e espiando pelas frestas. Quem cantava era de lá mesmo, rapazes seus conhecidos, então não tinha problema. Eram pelo menos três serenatas só para as duas. Todas as moças ganhavam? Algumas, sim; no dia seguinte era um ti ti ti, elas contando umas às outras das serenatas, como foi, quem fez. Quero saber o que a moça tinha que fazer para ganhar serenata. Ser bonita, simpática, ou o quê? Ela abre um sorriso: ah... nada. A gente conhecia os rapazes, eles gostavam de cantar, tinha a tradição da cidade, era o bastante. Podia bem ser um paquera, não podia era se declarar. Rindo, ela recorda: tinha um rapaz muito bonito, uma voz tão linda... sempre cantava na nossa janela. Sou curiosa: então, eles cantavam todo sábado, assim, do nada? Era costume na cidade pequena, ora. Mas as moças não chegavam à janela, não. É, a gente ficava deitada, ouvindo as serenatas, olhando pelas frestas. Sonhando. Pergunto em que época foi isso, ela responde com um grande sorriso que não deixa dúvida de que foram bons aqueles tempos: na década de setenta.Enquanto a conversa estica, o homem, violão em punho, segue cantarolando um refrão sem nexo. De vez em quando, pára em frente a uma loja e informa que está solteiro e quer encontrar uma noiva. Mais alguns acordes, as moças com risinhos descrentes. Quase seis da tarde, a essa hora tudo o que elas queriam era estar em casa, descansando e ouvindo Michel Teló. E o seresteiro querendo se casar, mas com seus versos capengas não consegue nada. Alguém arrisca: deve ser maluco, o coitado!
Deixo a moça com as lembranças de rapazes bonitos e canções ouvidas por entre as frestas das janelas. Serenatas, não ganhei nenhuma, porém tive frestas nas janelas e, de lembrar, dou risadas.
Na rua, um casal de velhinhos de mãos dadas, amiudando os passos. Os dois param em frente à galeria, olham para cima conversando baixinho, sisudos. Penso que resgatam lembranças do prédio velho e mal cuidado, e talvez de antigas serenatas. Mais adiante, comentam as quatro estações do Portinari, o mosaico ali no parque. Preciso saber com urgência quando é que a gente deixa de sorrir ao lembrar das coisas boas que viveu. Anoto: pesquisar no google. Os velhinhos, lá, admirando o Portinari; a multidão atravessando a avenida e a previsão do tempo para hoje é de tempestade solar. Como a gente não sabe o que é isso, a pressa é a de todo dia. Geomagnética. Tempestade geo... o quê?! Só uma fagulha do sol. Aviões perderão o rumo, os sistemas sairão do ar, mas nada de pânico: as contas e o carnê do iptu chegarão a tempo. O único problema é que os seresteiros, ou perderão a voz, ou morrerão de amor.


